:: Estilo :: Abril de 2007

ESTILO: eu uso óculos
Embaixador do skate



Um dos melhores skatistas do mundo, Bob Burnquist fala de suas façanhas e conta como se tornou o primeiro no esporte a usar óculos em manobras alucinantes

Marina Almeida

Ele tinha tudo para ser mais um astro gringo do skate. Até nome para isso tinha: Robert Dean Burnquist. Mas quiseram os deuses do esporte que ele nascesse em solo verde e amarelo. E tivesse metade de sangue brasileiro nas veias – Silva, obviamente. Filho de mãe brasileira e pai americano, Bob Burnquist cresceu em São Paulo e foi no bairro do Morumbi, na zona sul, que aprendeu as primeiras manobras sobre o skate, com a ginga e a descontração típica do hemisfério sul.

Percebeu ainda muito cedo que tinha jeito para a coisa. Ganhou seu primeiro skate aos 10 anos e um ano depois, ganhava a primeira versão profissional da prancha. De lá, a escalada rumo à posição de um dos melhores do mundo aconteceu de maneira consistente, inovadora e com uma rapidez de fazer inveja.

Hoje, esse libriano de 30 anos, casado com a skatista Jen O´Brien e pai da pequena Lotus, ocupa o imaginário coletivo como um mito no panteão do esporte, juntamente com atletas do calibre do mito do basquete Michael Jordan e do heptacampeão do surfe Kelly Slater. E não é para menos. Burnquist já foi três vezes eleito o melhor skatista do ano pela revista TransWorld Skateboarding (TWS), uma das mais conceituadas do esporte; recebeu o prêmio Laureous World Sports como o esportista alternativo do ano de 2002 das mãos de ninguém menos que Michael Jordan; e foi reconhecido como o melhor skatista do ano de 1997 pela Trasher Magazine. Burnquist virou até personagem de um jogo de Playstation, com saltos e piruetas radicais. Quer mais? Sua mais recente façanha foi saltar de um penhasco de mais de 500 metros de altura no Grand Canyon de cima de um skate, fato inédito até hoje, já que ninguém mais teve coragem ou habilidade para repetir a loucura. Tantas conquistas provam como Burnquist, ao lado de nomes como Danny Way e Tony Hawk, vem reinventando a forma como se pratica o esporte, elevando-o a um novo patamar.

Mas eu não sabia de nada disso da primeira vez que o encontrei, num evento da marca Oakley em São Paulo para a exibição do filme Our Life, filmado com e por skatistas profissionais de todo o mundo, inclusive o próprio. E mesmo entre semelhantes, como Sandro Dias, Daniel Vieira e Marcio Tarobinha, percebi que havia uma certa reverência ao nome Bob Burnquist. Cara a cara com o mito, fiz o que deu para fazer: troquei um ou duas palavras com ele, bati algumas fotos e saí de fininho.

Para minha sorte, dois dias depois, teria uma hora inteira de conversa com Burnquist só para mim. E no lobby do hotel Radisson, onde estava hospedado, o skatista falou, com encantamento quase adolescente e bom humor contagiante, do esporte que o transformou num ídolo e tudo que veio em conseqüência dele – os patrocínios, as conquistas e o título de “embaixador do skate brasileiro”. E, lógico, do seu fascínio com óculos e seu uso durante manobras absolutamente radicais.

20/20 – Já vamos tirar isso da frente: qual o peso de ser um dos melhores do mundo?
Bob Burnquist – Para mim o skate é mais que um esporte, é parte da minha identidade. Acredito que foi por isso que sempre tive a oportunidade de criar tantas coisas boas relacionadas a ele. A minha carreira, a minha vida e a maneira como tudo tem acontecido é de uma felicidade e de uma satisfação que não tem limites. Chegar até onde que cheguei não é fácil, principalmente sendo um brasileiro. Foi através do skate que eu tive a oportunidade de viajar por muitos lugares e de conquistar o título de um dos melhores do mundo. E é justamente por estar nesse patamar que eu tenho condições de criar cada vez mais. Mas isso não me dá o direito de achar que posso parar, de achar que já não preciso mais me preocupar. Não! Para estar entre os bons tenho que ter sempre a mesma garra e vontade do começo.

A diferença entre mim e os skatistas que estão começando é que as minhas idéias novas têm uma maior aceitação. Tudo que você quer fazer tem um custo, e como no skate esse custo é alto, a idéia de um atleta de renome tem maior aceitação no mercado.

20/20 – E uma dessas novas idéias tem a ver com o salto no Grand Canyon? Foi uma forma de superação sua ou uma maneira de fugir do “skate convencional”?
Burnquist – É mais uma parada do ser humano que uma evolução do skate. Na ocasião eu usei o skate para enfrentar uma superação pessoal, e o salto aliou a evolução da técnica do skate à minha evolução como pessoa. Para poder realizar o projeto, eu tive que unir o skate ao base jump. Tive que aprender a saltar de pára-quedas, e principalmente, tive que superar meus medos. Eu me lembro que quando eu finalmente aterrissei, me senti muito bem e logo pensei: ‘Essa foi. Qual vai ser a próxima?’

20/20 – Então você tem outros planos nessa linha?
Burnquist – Ainda não sei. Mas se eu colocar na cabeça que é o ápice, acabou, eu começo a descer. Mas de qualquer forma, tenho certeza de que até então, foi uma das coisas mais gratificantes e satisfatórias da minha carreira. E também foi a que mais demandou de mim, afinal, aquela situação envolvia a possibilidade de morte. Duas pessoas já tinham morrido saltando naquela reserva lá no Grand Canyon, mas não de skate, e nem do penhasco que eu saltei, que é o Hell Hole Bend. Eu não teria topado se fosse para saltar sem o skate, pois é um penhasco super perigoso. Se fosse só com o pára-quedas, sair correndo e saltar, seria muito mais arriscado. O skate me deu velocidade suficiente para me levar mais longe da parede, mas por outro lado, adicionou um monte de outras possibilidades, por exemplo, alguma coisa acontecer com o skate ou de eu cair antes do tempo. Eu tinha medo de um monte de coisas assim, ou de bater a cabeça e apagar. Eu só tinha 8 segundos. Tive que confiar nas minhas habilidades, superar os meus medos e acreditar que tudo daria certo.

20/20 – Quando é que você descobriu que realmente tinha talento para o skate?
Burnquist – Aos 10 anos eu tive meu primeiro skate e aos 11 eu ganhei o meu primeiro skate profissional. Comecei como a maioria dos skatistas, que é bem diferente de hoje em dia. Hoje, por ele estar em um outro patamar, muita gente que começa já pensando em ser profissional. Na época ninguém imaginava que se pudesse viver desse esporte.


20/20 – E quando é que você percebeu que poderia fazer isso? Afinal, existe uma diferença enorme entre brincar de andar de skate e viver profissionalmente dele.
Burnquist – Tem e não tem. A diferença é que antes não existiam as responsabilidades, os horários e os compromissos em certos eventos, mas o skate é o mesmo. Quando estou em cima do skate, parece que tenho 11 anos. Estou ali criando e me divertindo.

Na época dos meus 11 anos, o skate era uma febre. Todo mundo andava, todo mundo queria andar. Só que depois de um tempo, a empolgação foi passando e a galera que andava comigo deixou o skate de lado. Foi nessa hora que eu tive que me decidir.

Tive a sorte de morar próximo da Avenida Morumbi, em São Paulo, onde foi criada a primeira pista de skate de madeira com boa qualidade aqui no Brasil. Passei a competir em eventos amadores, treinando lá todos os dias. Quando comecei a ganhar esses campeonatos, passei a ter confiança e ver que era bom naquilo.

Mas foi só em 1995, quando competi o Slam City Jam em Vancouver, no Canadá, que as coisas mudaram. Cheguei lá sem muitas expectativas e saí como o vencedor da competição. Foi o primeiro campeonato internacional que um brasileiro ganhou, o que me deu uma força enorme para continuar. Eu tinha 18 anos, tinha acabado de finalizar o colegial, pronto para entrar em uma faculdade. Meu pai queria que eu seguisse nos estudos, mas eu pedi para fazer um ano de teste. Se me desse bem, continuaria no skate, senão, voltaria a estudar. Mas confesso que eu já sabia o que ia acontecer.

20/20 – A exportação de atletas brasileiros é um fenômeno cada vez mais comum. Por que você decidiu se mudar para os EUA?
Burnquist – A realidade do skatista brasileiro hoje é que se ele não for morar nos EUA, tem que pelo menos visitar constantemente, pois é lá que acontecem os principais campeonatos, que estão as principais revistas, é lá onde o skate é mais reconhecido.

Eu sou meio suspeito para falar já que não vivo aqui há muito tempo, mas o mercado brasileiro está evoluindo, apesar de ainda serem raras as pessoas que vivem do skate aqui. Conheço alguns skatistas que vivem no Brasil, e que vivem muito melhor do que antigamente, mas claro que não é no mesmo nível que viver do skate lá nos EUA. Eu moro lá hoje mais pela base, pela oportunidade e também pela segurança financeira e econômica, lógico. Meus patrocinadores são todos de lá. E outra, eu viajo tanto que ali é realmente só a minha base.

20/20 – Como atleta profissional, imagino que exista pressão por um desempenho cada vez melhor. Como é sua rotina de treinos?
Burnquist – Olha, eu vou te falar que não vejo o skate como treinamento e trabalho. A única vez que eu vejo o skate como trabalho é em eventos, quando estou quebrado e preciso ir para cumprir horário. Mas aí, quando começo a andar e me divertir, esqueço de todo o cansaço, e principalmente, esqueço que aquilo é uma responsabilidade. Mas são tantos eventos, e quando não tem evento, estou andando ou tirando fotos, que para mim já é um treinamento, mas não é um treinamento propriamente dito, como se fosse para um campeonato. Eu sempre ando de skate, e quando chega um campeonato, vou lá e pronto. Ah legal, ganhou? Ótimo. Não ganhou? Beleza, vamos para o próximo. Para mim não tem uma rotina, mas existem muitos skatistas, e cada um tem o seu jeito. Esse é o meu jeito.

20/20 – Quantos tombos você contabiliza em sua carreira?
Burnquist – Muitos, mas muitos mesmo. Todo dia que eu ando de skate eu caio. É 80% tombo. É tanto tombo que você até aprende a cair, mas nunca pensei em desistir por causa disso. Acho que já tive umas 27 fraturas pelo corpo, e muitas no mesmo lugar. Quem anda de skate está sujeito a isso o tempo todo, não tem como escapar. Tem muita gente que pára na primeira quebrada. Para mim, na verdade, o efeito é contrário: quando me machuco é justamente quando eu tenho mais vontade de andar. Aquele tempo de esperar ficar bom é o tempo em que eu mais sinto vontade.

Algo que ajuda muito é o alongamento, e essa é uma visão do esporte que muitos skatistas ainda não têm. Quando eu era moleque também não pensava isso. Na verdade eu tinha até uma certa aversão a isso. Mas o tempo foi passando e eu fui sentindo os limites do meu corpo, e percebi que o alongamento ajuda muito. Há uns anos atrás eu descobri a ioga e não acreditei como me sentia bem. Depois que eu encontrei a fórmula do que é melhor para mim, comecei a seguir. Vou continuar com o que está dando certo.

20/20 – E como é ter um playground no quintal da sua casa? (Burnquist tem rampas de skate construídas sob medida em seu quintal)
Burnquist – Eu tenho duas rampas e recentemente construí uma maior (uma pista de 37 metros de largura por 21 de comprimento). Sou eu quem faz os projetos. Todas as idéias para a construção dessas rampas vieram da inspiração de outros lugares, do próprio terreno lá de casa e da troca de idéias com os consultores. Mas são idéias que me vêm à cabeça e que eu tento pôr no papel, até porque adoro desenhar.

A mais recente é essa mega rampa, a única que está em pé e a primeira dentro de um quintal. O tamanho do quarter é de 10 metros, e o salto que se pode dar é de 18 a 25 metros. É comparável a uma rampa de ski no tamanho, por isso ficou tão famosa. Você desce em velocidade e dá o salto, aí tem uma outra rampa para segurar a sua velocidade, porque não tem como parar. Essa é a idéia. Até para fazer o salto do Grand Canyon eu usei de inspiração essa rampa. Precisava de velocidade e distância para saltar para longe da parede. Então, o salto não poderia ter acontecido antes da construção da mega rampa.

20/20 – Que conselhos você costuma dar para quem está começando?
Burnquist – Divirta-se em cima do skate, aproveite tudo que é possível. Dependendo do que você tem na cabeça, você vai ter um skate estressante ou não. Não acredito o cara tem que andar de skate querendo ganhar, já pensando na oportunidade. Isso é completamente fora da filosofia do skate. Skate é diversão, criação e independência. Claro que tem o lado profissional, mas é importante começar por satisfação, prazer.

20/20 – Falando sobre a sua visão: como é possível competir de óculos?
Burnquist – Eu tenho miopia, 1,75 de um lado e 2 graus de outro. Uso óculos desde os 7 ou 8 anos, antes mesmo de começar a andar de skate. No começo eu era obrigado a usar pela insistência da minha mãe e pelas fortes dores de cabeça que sentia. Mas depois, achei que aquele acessório ficava legal, me dava um ar diferente das outras crianças. Durante algum tempo eu só usava para ler ou estudar, mas aos 10 eu já estava usando direto. Quando ia andar de skate eu tirava, pois tinha medo de cair com eles e me machucar. E isso continuou por muitos anos.

Foi durante uma demonstração em Big Bear, na Califórnia, em 1997, onde o pessoal faz snowboard, que eu usei pela primeira vez uns óculos junto com o skate. Naquela ocasião a rampa estava construída a favor do sol, e no momento em que subíamos com o skate, o sol batia direto nos olhos. Normalmente a gente pede para construírem as rampas em sentido contrário ao sol. Mas enfim, naquele dia eu tinha levado óculos solares bem grandes e acabei usando para andar de skate.

A galera não tinha costume de andar de óculos, mas eu testei e percebi que podia ver tudo normalmente. Justamente nesse dia eu fui fotografado para uma revista americana de skate e acabou saindo uma seqüência minha de manobras usando os óculos. Na ocasião usei mais como uma parada funcional, não pensava que isso pudesse me trazer um patrocínio da Oakley (hoje, Burnquist é um dos atletas de ponta patrocinados pela empresa). No início eram só solares mesmo, mas com a entrada do patrocínio consegui encontrar o modelo oftálmico ideal para usar durante a prática do esporte. Hoje essa associação é tão grande que ninguém mais me vê sem os óculos.

20/20 – E o perigo de os óculos caírem durante uma manobra mais radical?
Burnquist – O maior perigo é que se os óculos não tiverem qualidade, a lente pode quebrar e machucar o olho. O outro perigo é que se a lente não tiver boa óptica, você vai ter diferença de luz e vai ter dificuldade para andar. Óculos falsos têm esse problema. Os que eu uso têm uma qualidade muito superior e não quebram, mesmo que eu caia com eles. Tenho certeza de que se fosse qualquer outro eu já não ficaria tão confortável de usar o óculos andando de skate.

Quanto a eles caírem do rosto, quase nunca acontece. Eles encaixam bem e ainda ficam presos pelo capacete. Tem até uma história engraçada: as pessoas costumam falar que quando os meus óculos caem durante uma manobra é porque eu me machuquei mesmo. Tipo, se os óculos caíram é porque foi alguma coisa séria.

Teve também uma vez que eu estava no México fazendo um evento em uma mega rampa e tinham mais 11 ou 12 skatistas comigo. Quatro deles eram meio novatos, e por isso não paravam de falar desgraças, só ficavam imaginando o pior cenário possível. Bom, se você já está lá em cima, pára de pensar em tragédias, né? Para a minha sorte, eu tinha levado o modelo Thump (que tem um aparelho de MP3 acoplado nas hastes), da Oakley, que eu coloquei para escutar músicas, o que me ajudou a me concentrar. Foi aí que eu comecei a andar de Thump na mega rampa, o que foi ótimo.

20/20 – Existe um modelo ideal para andar de skate? Que tipo você recomenda?
Burnquist – O conselho que eu dou a quem vai comprar óculos para andar de skate ou fazer qualquer outro esporte é que o modelo possibilite que você tenha toda a visão do que está fazendo.É importante que seja um modelo de três peças para que a parte de baixo não atrapalhe sua visão. Não precisa ser necessariamente óculos especiais para andar de skate. Você só precisa colocar um elástico nas hastes e amarrar atrás da cabeça para evitar que ele caia.

20/20 – Você tem muitos pares de óculos?
Burnquist – Tenho muitos. Fui guardando todos os modelos que usei. Devo ter uns 50. Tenho até o primeiro que eu usei com o skate, daquela demo. Gosto de guardar.

20/20 – E como é ver suas manobras sendo feitas por um personagem do Playstation?
Burnquist – O lance do Bob virtual no primeiro jogo de videogame com o meu personagem foi realmente muito legal. É um jogo revolucionário, que entrou na casa de muitas pessoas e que muita gente jogou. E eu, como personagem, pude ter uma ligação com as pessoas que não teria de uma outra forma.

Por mais que você apareça na televisão ou estampe capas de revistas, o jogo proporciona um contato diário com quem está jogando. E as pessoas curtem. É uma interação muito grande e isso para mim foi muito importante.

Fotos: Maria Clara Diniz


 
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