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Lilian Liang
Nunca fui tão bem recebida para uma entrevista. Havia chegado mais cedo que o previsto para conversar com a atriz Graziella Moretto, a ex-garçonete Beki, da novela Da Cor do Pecado, em seu apartamento no Paraíso, na zona sul da capital paulista. Fui acolhida com um sorriso e de braços abertos – literalmente – por sua filha, Nina. Detalhe: minha anfitriã tem apenas 8 meses. O que mais impressiona em Nina são as semelhanças com sua mãe. O nariz perfeito, os olhos claríssimos e a pele branquinha deixam evidente o poder da genética. E, como se não bastasse, a primogênita herdou também o bom humor de Graziella. Nina fez sala durante 40 minutos, sem choro. Uma raridade no temperamental universo infantil. Tão irresistível quanto a simpatia de Nina são as caras e bocas com que Graziella presenteia o público todos os dias em Da Cor do Pecado, no papel de amante de Ney Latorraca. Pergunto se não houve hesitação em fazer novela na Globo, considerando sua sólida formação teatral. “Fui convidada pela diretora da novela e depois soube qual seria meu papel”, conta. “Eu mais me divirto que trabalho.” Graziella é tão boa em provocar gargalhadas que fica difícil acreditar que essa santista foi tímida um dia. Pisou num palco pela primeira vez aos 14 anos, incentivada pelo pai, ator amador, e considerava as aulas de teatro seu canto para ser extrovertida. Gostou tanto da brincadeira que acabou por transformá-la em profissão. Ingressou na Escola de Arte Dramática (EAD-USP), cujas crias incluem atores como Marisa Orth, Aracy Balabanian e Sérgio Mamberti. Mesmo com talento inquestionável, a ralação no começo da carreira foi cruel. Depois de se formar, partiu para Nova York, onde ficou por três anos trabalhando como babá e garçonete para bancar seus cursos no Public Theater e no Actor’s Center. Sempre que vinha ao Brasil, fazia campanhas publicitárias. “Eu era vendedora de presunto”, brinca. A reviravolta em sua carreira veio em 1999, quando Graziella recebeu o convite para participar de Domésticas, dirigido por Fernando Meirelles, um dos diretores brasileiros mais badalados da atualidade. Para ela, foi um divisor de águas. Além de o filme ser responsável por seu reconhecimento profissional, foi durante as filmagens do longa-metragem que conheceu seu marido, o técnico de som Guilherme Ayrosa. De lá, surgiram convites para outros filmes – entre eles, Cidade de Deus, indicado ao Oscar este ano – e até uma temporada no elenco de Os Normais, hit da televisão brasileira protagonizado pelos impagáveis Luís Fernando Guimarães e Fernanda Torres. Assim como Domésticas, a peça Terça Insana também foi um marco na carreira de Graziella. Sucesso de público em São Paulo, a peça foi vista por mais de 130 mil pessoas depois de um início discreto no centro da cidade. Foi nela que a atriz passou a escrever seus próprios textos e teve oportunidade de criticar coisas na mídia que a deixam indignada. “Muita gente me diz que detonamos muito a televisão na Terça Insana. E eu nem assisto à TV. O poder da informação é tão grande que o que vem por osmose já dá material de sobra”, critica. “Eu nem preciso assistir pra saber que a coisa não anda bem.” A chegada de Nina deu uma guinada na vida da atriz, hoje com 32 anos. Acostumada a transmitir ao público as sensações de seus inúmeros personagens, Graziella ainda tenta entender a capacidade de amar que veio com o papel de mãe. “Você ama tanto, tanto que chega à conclusão de que não dá para amar mais que aquilo,” diz a atriz, que pretende lançar um livro falando sobre a experiência da maternidade. “Aí no dia seguinte ela faz outra gracinha e você vê que ama mais ainda. É inexplicável.” Com pai e mãe às voltas com palcos e câmeras, avô ator amador e tias que se enveredaram pelo mundo das artes – a segunda irmã de Graziella é figurinista e a caçula trabalha com educação e arte –, é natural perguntar se Nina trilhará o mesmo caminho. Só o tempo vai dizer. Mas se depender da genética, a pequena já está bem encaminhada.
20/20 – Você usa óculos porque precisa ou por vaidade? Graziella – Uso óculos desde os 12 anos. No começo era só miopia, o astigmatismo começou quando eu tinha uns 20. Hoje tenho dois graus de miopia e um de astigmatismo, que já estão estacionados há algum tempo. Percebi que tinha alguma coisa errada na escola, porque minha visão começou a ficar embaçada e eu sentava lá na frente. 20/20 – Como foi ter que usar óculos na adolescência? Graziella – Eu achava o máximo, acreditava que os óculos me davam um certo ar de intelectualidade. Meus pais também adoram óculos, então na época foi quase um evento, do tipo “Vamos escolher um par de óculos para você”. Sempre considerei os óculos um acessório que fazia parte de mim. Pode soar meio clichê, mas muita gente diz que ator é tímido, portanto os óculos agem como um filtro. É como se ajudassem a me proteger. Na adolescência funcionou um pouco assim. Como nunca fui namoradeira nem extrovertida, acho que me escondi atrás dos óculos.
20/20 – Como é o seu relacionamento com os óculos? Graziella – Sempre gostei muito de escolher óculos e sempre fui muito fiel a eles. Usava o mesmo modelo por dois, três anos. Hoje tenho vários porque acho que preciso. Gosto de armações escuras, apesar de muita gente dizer que eles me envelhecem. Mas eu me sinto confortável com eles, até por ser um filtro. Tenho aqueles transparentes, discretos, mas prefiro que saibam que estou usando óculos. Eu não consigo ir daqui até ali sem óculos. Acordo e tenho que colocá-los para enxergar. Há quem não goste de usar nem óculos nem lentes de contato. A Carolina Ferraz, por exemplo, tem seis graus de miopia e não usa nada porque não gosta. Não usa nem para dirigir. Ela disse que já teve que descer do carro para enxergar placas, mas se recusa a usar óculos ou lentes. Eu não consigo.
20/20 – Óculos combinam com a profissão de atriz? Graziella – Os óculos eram um acessório que eu achava bacana, mas tive que começar a usar lentes de contato quando eles começaram a me atrapalhar profissionalmente. Antes das lentes eu fazia as peças sem ver com nitidez. Era um problema, porque eu não conseguia enxergar a expressão do companheiro em cena. A situação piorou com o astigmatismo, porque a sensação era de estar vendo TV com fantasma. Por isso, profissionalmente as lentes foram um avanço na minha vida. Quando comecei a usá-las, a platéia ganhou outra dimensão, e ver o companheiro em cena com nitidez fez uma diferença enorme. Mas no dia-a-dia prefiro ficar de óculos. É parte da minha identidade.
20/20 – Quantos pares de óculos você tem hoje? Graziella – Tenho cinco pares de grau e uns oito pares de óculos escuros bem ruins. No acervo da minha irmã, que é estilista, estão todos os óculos que eu tive na minha vida inteira, e mais uma porção de óculos escuros que eu doei para ela. Não gasto muito dinheiro com óculos de sol porque sou desleixada e jogo tudo na bolsa junto com as chaves. Minhas irmãs dizem que eu nunca vou poder ter óculos de sol caros. Isso não acontece com os de grau porque eles estão sempre no rosto ou no criado-mudo.
20/20 – Já fez personagens de óculos? Graziella – Muitos, inclusive para a Terça Insana. Acho que eles ainda carregam um quê de caricatura. Quando você coloca óculos em cena, está pontuando alguma coisa. Um par de óculos para um personagem é um statement. Você dificilmente vai colocar uma mocinha de óculos – a Maria Clara Diniz [personagem de Malu Mader na novela Celebridade] não iria usar óculos, por exemplo. Isso é um tipo de preconceito ainda relacionado a eles, muito ligado a estereótipos, passando a idéia de que os óculos enfeiam a pessoa, o que é uma bobagem. Já os de sol, por exemplo, são sempre sinal de status.
20/20 – Sua carreira pode ser dividida em pré-Domésticas e pós-Domésticas? Graziella – Domésticas foi um divisor de águas. É um personagem que eu tive liberdade total para fazer e que mostrou um lado meu que talvez ninguém nunca tivesse visto, principalmente de humor. Era um personagem completo, que qualquer ator gostaria de fazer, ainda mais da forma experimental e artesanal com que foi feito. Depois do filme todo mundo começou a me conhecer, muita gente viu meu trabalho, principalmente no meio. E foi em Domésticas que eu conheci meu marido.
20/20 – Como foi a experiência de trabalhar em Os Normais? Graziella – Fazer Os Normais foi uma surpresa. Era um programa a que eu gostava de assistir, que tinha um diferencial, não só de linguagem e texto, mas na maneira como era feito. E eu já era fã do Luís Fernando Guimarães e da Fernanda Torres, porque cresci assistindo à TV Pirata, que foi um programa que me inspirou. 20/20 – Você considera o humor um filão a ser trabalhado? Graziella – Não é um filão ou algo que eu olhe com objetividade. Gosto muito de fazer humor, gosto de fazer rir porque eu gosto de rir. Ultimamente eu digo que, mais do que trabalhar, tenho me divertido pra caramba, porque eu só dou risada. Eu fazia Terça Insana morrendo de rir, faço a novela me divertindo à beça. Mas como artista é a maneira com que estou me comunicando com o público. E está chegando. Através da Terça Insana tive oportunidade de falar coisas que me indignavam. Como artista, enquanto me comunicar com as pessoas e achar que o que estou fazendo reflete minha indignação, ótimo: vou fazer rir. O feedback que eu tenho é que as pessoas realmente se identificam com o que eu faço.
20/20 – Como você avalia a situação da televisão brasileira? Graziella – É uma situação deplorável. Eu estou numa novela que é atípica, escrita pelo João Emanuel, um cara que era roteirista de cinema, que escreve superbem e que descobriu que gosta de escrever novela. Então há uma luz no fim do túnel. Mas do jeito que a coisa vai, é realmente desalentador. Todo mundo falava que a gente detonava muito com a televisão no Terça Insana. Mas eu nem assisto à TV. Só o que chega por osmose já é suficiente para ficar tão revoltado que já tem material de sobra. Tento fazer a minha parte. Tenho projetos, o sonho de contribuir, de fazer diferença. Você vai fazendo opções, como não fazer coisas em que não acredita. A gente vai tentando abrir um caminho. Uma hora chega lá.
20/20 – A Nina vai seguir os passos da mãe? Graziella – Eu sempre falo que vamos incentivar para o esporte (risos). Mas acho bonito quando é algo de família. Eu comecei a fazer teatro porque meu pai é ator amador, mas profissionalmente teve que escolher outra vida. Ele estimulou muito a gente, tanto que eu sou atriz, tenho uma irmã estilista e outra que faz pedagogia e trabalha com arte e educação. De alguma maneira, isso entrou na vida de todas nós. Eu não vou forçar nem estimular, mas existem histórias em que é inevitável. A Fernanda Torres, por exemplo. Não dá para dizer que aquilo é só herança. Veio no sangue. O importante é fazer o que se gosta. Mas às vezes estar no meio ajuda a trazer aquilo que já vem de fábrica.
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